Quaresma: a jornada para a Páscoa

Estamos na Quaresma, o período do ano de jejum, oração e esmolas de modo especial. Mesmo passando o preconceito brasileiro de enxergar isso como “coisa de católico” somente ou mesmo como uma “penitência” a ser feita, ainda podemos nos tornar reféns da rotina. Sermos reféns da rotina é entrar no automático, é fazer sem pensar, o interior vazio enquanto o externo exerce alguma atividade. No caso da Quaresma, o nosso coração pode ser facilmente levado a enxergar e viver esse período como um tempo onde nós temos que seguir apenas um conjunto de regras externas, como o característico jejum da época.


Contudo, sem verdadeiro entendimento do período, sem a oração devida, sem o desapegar-se do material de um modo geral, coisas como jejum se tornam apenas uma dieta. Oração se torna falatório inútil. Esmola vira mero serviço social. E porque isso acontece? Porque esquecemos de meditar nas verdades sobre quem nós somos, e isso, diante do Deus todo poderoso. Como diz Alexander Schmemann, em seu livro Great Lent: Journey to Pascha:

“É fácil de fato confessar que eu não jejuei nos dias prescritos, ou faltei com as minhas orações, ou fiquei com raiva. É uma coisa completamente diferente, entretanto, entender de repente que eu contaminei e perdi minha beleza espiritual, que eu estou muito longe do meu verdadeiro lar, e que algo precioso e puro e belo tem sido desesperançosamente quebrado na própria textura da minha existência. Isto, e somente isto, é arrependimento, e portanto também é um desejo profundo a retornar, a voltar, a recuperar o lar perdido.” (p.23-24, tradução minha)

Essa são as grandes verdades a serem meditadas: primeiramente, que somos criaturas de Deus, reflexo da glória do Altíssimo e Eterno Senhor. Cristo vem e desce ao deserto, sofre, e morre no madeiro, para nos refazer à antiga imagem feita no Éden, jubilando, para viver como que da árvore da vida. Seja no início de tudo, seja agora, somos criaturas feitas para compartilhar do amor do Deus Infinito em amor; para nos alegrarmos e sermos santos, e nos alegrarmos no que é santo; para nós termos uma intimidade com o Insondável e Infinito Deus do Universo. Em resumo, para sermos co-participantes da natureza divina, refletindo, em menor escala, a glória do Deus Grande, Forte, Imortal.


Em segundo lugar, que somos criaturas doentes e contaminadas pelo pecado. Adão tinha a grama do Éden aos seus pés e a Árvore da Vida para ainda ser desfrutada, mas preferiu a Árvore Proibida, quis por os pés no trono de Deus, sendo Deus. E o que nosso pai Adão fez, nós fazemos. Mesmo os que conhecem a salvação em Cristo, e a derrota de todos inimigos, o juízo final e a restauração de todas as coisas, somos vez após vez vencidos pelos nossos apetites adâmicos desmedidos. Por vezes esquecemos da realidade espiritual a nossa volta, e atentamos às coisas terrenas somente. Esquecemos de nos satisfazer em Deus para satisfazer o nosso próprio ventre.


E eis a Quaresma, um bom caminho de retorno a Deus. Como Schmemann diz, ao percebemos essas duas realidades, da nossa Glória e da nossa Queda, percebemos que somos peregrinos longe do lar, mas em jornada, em viagem rumo à Jerusalém do Céu. Precisamos reavaliar o que estamos gastando nesta viagem, ou se está de fato nos ajudando a viajar. Precisamos cortar caminhos tortuosos que atrasam a nossa aproximação do Paraíso. Precisamos reorientar a nossa viagem.


O jejum acaba nos mostrando onde está o nosso deleite, mostrando que às vezes é muito difícil nos abstermos dos prazeres corporais. Assim, o jejum nos ensina e treina o domínio próprio, não somente com a comida, mas com outros desejos físicos. E com domínio próprio, reorientamos o nosso prazer para Deus.


A oração acaba nos mostrando onde está a nossa confiança, mostrando que às vezes é muito difícil confiar no Deus que nós não vemos para resolver problemas que vemos. Assim, a oração nos ensina e treina a perseverança para toda e qualquer situação, não confiando nas variáveis inconstantes das finanças, afetos, política e sociedade, mas se aquietando e esperando em Deus. E com perseverança, reorientamos a nossa segurança para Deus.


A esmola acaba nos mostrando onde está o nosso desejo, mostrando que às vezes é muito difícil se desapegar do nosso dinheiro ou dos nossos bens, como fontes até de nosso deleite e confiança. Assim, a esmola nos ensina e treina o contentamento, nos fazendo mais satisfeitos com que temos, a ponto de subtrairmos do que temos para que o necessitado seja satisfeito. E com contentamento, reorientamos a nossa vontade para Deus.


Assim, deixando os velhos laços do velho homem para trás, nos voltamos para subir a Sião. Deixamos o ruído inconstante do mundo externo para começar a corrigir nosso mundo interno. É difícil largar as alegrias instantâneas do mundo hiper-sensorial e cheio de estímulos para nos concentrarmos em avaliar nosso interior, suavizar o coração, e nos aquietarmos para termos o que Schmemann descrevia como uma “tristeza resplandecente” diante das coisas do mundo. Morremos para o mundo, para que possamos viver para Cristo agora, ressuscitando para Cristo no fim. O tempo da Quaresma é justamente para nos auxiliar a seguir o que nos diz Tiago:

“Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós outros. Purificai as mãos, pecadores; e vós que sois de ânimo dobre, limpai o coração. Afligi-vos, lamentai e chorai. Converta-se o vosso riso em pranto, e a vossa alegria, em tristeza. Humilhai-vos na presença do Senhor, e ele vos exaltará.” (Tiago 4:8–10)

Esperemos humilhados com Cristo nessa jornada da Quaresma, para que possamos ser ressuscitados exaltados com Cristo na Páscoa.


Marcel Cintra

Fonte: lecionario.com


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